Eu estava num grupo de amigos um dia destes e uma das pessoas, recém chegada, cumprimentou um rapaz que já estava conosco. Ela perguntou ao rapaz se a situação tinha melhorado e se estava tudo bem. A moça insistia que o rapaz só conseguiria resolver seus problemas de uma maneira: indo à igreja. Então foi que eu notei a força que ela fazia para convence-lo a ir à sua igreja e para que ele conhecesse a Jesus através desse processo. Conversamos um pouco ainda e eu soube que o rapaz vivia com uma moça e que o relacionamento estava muito difícil. Então, minha amiga explicou ao rapaz que ele só encontraria a mulher certa se procurasse no “lugar certo”.
Toda essa conversa ficou no meu coração por um dia inteiro e eu percebi como temos agido de forma muito pouco adequada com as pessoas do mundo, esperando que elas ouçam nossos conselhos e os sigam acreditando neles como um paciente acredita em seu medico de confiança.
Você já jogou Batalha Naval? É um jogo de estratégia no qual dois participantes têm um tabuleiro individual onde colocam seus navios de guerra. Os dois vão atirar falando números de coordenadas para tentar acertar as posições do inimigo. Nesse processo a maioria dos tiros (números das coordenadas) vai parar na água e alguns acertam, quase sempre por sorte, nos navios do outro.
Pensando bem, muito evangelismo que tenho visto por ai, tem sido realizado dessa maneira. Fala-se para a pessoa sobre a igreja e, se por acaso ela esta procurando amigos ou mesmo uma igreja, pronto: acertamos o tiro. Mas, na maior parte das vezes, a pessoa não esta procurando amigos nem muito menos uma igreja. Ela nem liga para o nosso discurso e nosso testemunho é ouvido, quando muito, por educação.
Por que???
Antes de respondermos a essa pergunta, temos que ter outras respostas:
1)Para quem é a igreja?
Bem, quando Jesus disse a Pedro:” - Tu és pedra e sobre esta pedra edificarei a minha igreja“, ele estava falando a alguém que o conhecia de andar com ele. Ele estava comunicando a Pedro que, a partir do novo nascimento, os servos do Senhor precisavam de um novo ponto de referencia, uma identidade nova: a igreja de Jesus. Mas, para ser renascido é preciso ser pecador, arrepender-se e aceitar o sacrifício de Jesus como resgate de sua vida. Para ser pecador é preciso se reconhecer como tal.
“Jesus, porém, ouvindo isso, respondeu: Não necessitam de médico os sãos, mas sim os enfermos”. (Mateus 9:12)
Analise comigo: para quem é o inferno? Para pecadores? Não! Para pessoas “boas” que acham que o que fazem não está errado porque o errado é relativo e se elas não roubam nem matam e cumprem seus compromissos além de ajudar os pobres, então não são pecadoras. Não é assim que o mundo pensa?
O céu é para os pecadores, assim como a igreja. Como então nosso discurso evangelístico quase sempre parte do convite para ir à igreja? Como esperamos que uma pessoa queira ir a uma igreja se ela “não é pecadora” e, portanto, não sente qualquer necessidade para isso? Aliás, igreja, para estas pessoas, é lugar de gente mal amada e pior resolvida.
Não podemos esperar que uma pessoa deseje, ou sequer aceite, ir a uma reunião da igreja se toda a informação que ela tem a respeito é de pastores que enganam o povo inocente e de lideres corruptos que falam e não fazem e que são lobos em pele de cordeiro.
Este é o quadro real pelo qual muitas pessoas do mundo identificam a igreja. É um quadro triste: retrato do fracasso e do atraso de vida.
2) De que igreja estamos falando?
Quando convidamos um amigo, para ir conosco à igreja, a que igreja nos referimos? À “nossa”? Mas então não os estamos convidando para ir a uma reunião da igreja de Jesus? Mas que diferença tem uma “igreja” de “outra”?
Quando nosso convidado manifesta seus conceitos sobre igrejas, temos o impulso de defender nossa congregação com argumentos que nada significam para ele, já repararam? Falamos de doutrinas e da sinceridade do povo que se reúne lá, dos sermões poderosos do nosso pastor, que nada tem a ver com os pastores enganadores e por aí afora. Às vezes conseguimos “convencer” nosso candidato à salvação, a nos acompanhar a um culto. Principalmente se revelamos as maravilhas que o Senhor tem feito na vida das pessoas, tais como curas, restaurações de relacionamentos, etc.. Isto muitas vezes atrai as pessoas pelo beneficio, quando nossa intenção era a de revelar o poder do nosso Deus e o amor que Ele tem por seus filhos.
3) O que tem na igreja que não tem fora dela?
Afinal, o que desejamos mostrar ao nosso amigo? O que ele poderá desejar ver na igreja que não tenha visto em nós? Que resultados ele pode esperar para si que não os vê em nossas vidas?
Aí está o ponto chave ao qual Jesus se referiu durante todo o seu ministério entre os apóstolos, resumido nas palavras de conselho e conforto:
“Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas.”(Mateus 11:29)
Quando absorvemos intimamente este ensino, tão certo como é toda a Palavra de Deus, nosso comportamento muda sem que nós façamos força para isso. Na verdade, nós mudamos em essência, pois no Senhor temos domínio próprio e alegria.

Ora, e não é isto que as pessoas buscam dentro e fora da igreja: domínio próprio e alegria verdadeira? No entanto o mundo oferece um leque atraente de fontes de alegria: relacionamentos, dinheiro, poder, etc.. E as pessoas estão cada vez mais insatisfeitas e frustradas com os resultados a que chegam. Somente poderão crer novamente na alegria e paz se encontrarem alguém que tenha isso tudo evidenciado em sua vida. Precisam encontrar uma referência: alguém verdadeiramente realizado e que tem vitórias em suas aflições. Não alguém que pregue um mundo fantástico onde você não terá mais problemas ou, se os tiver, serão resolvidos sem o menor trabalho ou tristeza, mas pessoas que sejam reais, com problemas reais e vitórias reais, cuja força venha de um Deus Todo Poderoso. Somente assim é que o Espírito de Deus pode testificar no coração de uma pessoa sem esperanças: através da verdadeira vida de intimidade com o Senhor manifestada no comportamento diário que compreende hábitos moderados, conserto das falhas do cotidiano no que se refere ao próximo, mesmo quando injustiçado, compromisso com a verdade e com suas responsabilidades, além do reconhecimento das autoridades constituídas, sejam elas legais, espirituais ou sociais (família).
4)Conclusão: Temos então um diagnóstico que requer uma terapia adequada e esta já foi providenciada por nosso Senhor Jesus:
“Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca.”(Mateus 26:41)
“Porque a inclinação da carne é morte; mas a inclinação do Espírito é vida e paz.”(Romanos 8:6)
As pessoas não precisam de igreja, elas precisam ser igreja. As pessoas precisam ser igreja como nós somos igreja. E a igreja é constituída por pessoas que crêem em Deus e na Salvação pelo poder do sangue de Jesus e que buscam a intimidade do Senhor para viver conforme a Sua vontade.
Ora, esta é certamente a chave do avivamento da igreja e da vitória do Evangelho sobre toda a desesperança e ansiedade: a oração!
“Mas tu, quando orares, entra no teu quarto e, fechando a porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.
E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios; porque pensam que pelo seu muito falar serão ouvidos.
Não vos assemelheis, pois, a eles; porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes de vós lho pedirdes.” (Mateus 6:6-8)
Florianópolis, maio de 2003.



#1 by jaison on 11 de setembro de 2009 - 14:50
Conheço aquele gordinho lá atraz….
#2 by Tiago Gigli on 4 de outubro de 2009 - 23:04
Mara! Excelente texto e excelente percepção. Evangelizar deixou de ser um processo de ensinar as boas novas para terceirizar esse ensino. Isso quando essa terceirização funciona né? As vezes leva-se alguém para ser evangelizado e o coitado acaba indo visitar um show de horrores. Mas isso, pela minha visão, evidencia principalmente que as pessoas que se consideram evangélicas nem sabem no que de fato acreditam. Minha mãe é um caso desses. Ela segue tão fiel e cegamente os ensinos que sequer consegue responder a uma ou duas perguntas sobre o assunto.
O meu afastamento da igreja tem vários aspectos. Um deles é que não me adequo mais ao meio. Um dos objetivos das igrejas locais é agregar (ou congregar) um grupo de pessoas que tenham principios e interesses parecidos. Algumas pessoas, como eu, não se sentem a vontade num grupo mais carismático e outras, num grupo mais ortodoxo. Entretanto todos as igrejas locais tem alguns pontos comuns. O ensino jesuitizado… um homem, condecorado, ensina um assunto dedicadamente estudado, aos fiéis.Todavia, apesar do zelo e dedicação desde homem (ou mulher) pode suprimir ou mesmo concluir de forma errada informações. Neste caso um sistema de ensino interativo seria mais adequado.
Se um pastor ensinar sobre a trindade no pulpito eu não poderia, diante da minha conciência, deixar de questioná-lo.
Há tantos outros assuntos com os quais não concordo e tenho conciência que eles provem da ideologia capitalista e nada tem a ver com a Bíblia. Neste caso eu seria contrário em essência com uma igreja e seria um estorvo dentro dela e não acho aceitável tal atitude. É como se eu agrupasse alguns amigos que gostam de basquete para jogar aos sábados na quadra do parque, mas todos os sábados um deles trás a bola de futebol para jogar. Poxa… se somos um grupo de interessados pelo basquete, até podemos jogar futebol um dia, mas nosso objetivo não é esse.
Se eu fosse definir minha fé hoje, eu diria que me aproximo de um deísta, mas não procuro identificá-la.
Sou profundamente devoto do Criador, como fui desde os 11 anos, e muito mais agora. Mas meus ensinamentos são mto divergentes do evangelicismo.
#3 by Mara Protta on 12 de outubro de 2009 - 10:42
Caro Tiago,
Primeiro, obrigada por se dar ao trabalho de expor seus sentimentos aqui, testificando o quanto nós, como igreja, temos falhado. Mas, quero te desafiar a olhar novamente de frente para o Evangelho Verdadeiro, identificar a obra a que se dedicou Jesus e através da qual fomos libertos da morte eterna, por um preço tão alto: o de ser o veículo de todo o mal que estava sobre a humanidade, para que o inferno não pudesse deter a quem se colocasse debaixo desse sacrifício.
Segundo, gostaria de esclarecer que não creio que a solução deste impasse quanto ao comportamento tímido da igreja como evangelista, seja o descrédito de toda instituição cristã ou mesmo o afastamento dos que têm discernimento, dos bancos das congregações. Pelo contrário. Esta mensagem o Senhor a deu para que, começando por mim, tomemos nosso lugar à mesa! O Senhor nos chama ao banquete da ministração da sua Palavra, da pregação do Seu Evangelho, da degustação da Sua Unção. É hora de acordarmos e IRMOS! Se não formos a este banquete, Ele chamará a outros, e ficaremos fora pra sempre!
Com temor e amor no Senhor! Deus o abençoe!
#4 by Marlene on 20 de janeiro de 2010 - 12:38
Mara,
muito bom seu texto. Concordo plenamente que as pessoas devam vir a Cristo pelo exemplo de nossas vidas, pois somos a igreja de Cristo. Assim também evangelizo o povo que Deus me dá, porque primeiro acredito que devam conhecer Jesus, depois, se houver o despertamento e vontade falo da igreja e faço o convite. Obrigada acredito que através da sua mensagem muitos e muitos saberão como é fácil estar com Deus.