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A Alegria

Tenho ouvido e lido muitas coisas sobre a depressão, mas nada, ou quase isto, sobre a alegria. Parece que só dá status falar dos problemas, porque os médicos são procurados para a cura. Mas, nem sempre foi assim. Li em algum lugar que, na antiguidade, em alguma parte do mundo, os médicos eram responsáveis por manter a saúde das pessoas. Caso alguém ficasse doente, o médico poderia até ser castigado.
Hoje vivemos na cultura do saneamento tardio, da busca por soluções de problemas e não da manutenção da integridade física, emocional e social. Embora se fale tanto em exercícios físicos diários para se manter a saúde, isto não parece ser uma coisa muito eficaz, pois vemos ao nosso lado tantas pessoas que freqüentam academias caras, fazem longas caminhadas por lugares lindos, alimentam-se com tudo o que há de melhor no mercado e mesmo assim vão ao psicanalista para tratarem a depressão.
Eu mesma tenho convivido, por longos anos, com a visita esporádica dessa desconfortável situação emocional. Em todas as vezes em que me encontrei em total prostração, física inclusive, não aceitei recorrer a drogas. Essa resistência não é sem fundamento, embora, há alguns anos eu não soubesse explicar o porquê. Hoje, depois de ter lutado incontáveis vezes com todo tipo de depressão, posso seguramente falar sobre como obtive vitória em cada uma delas, sem exceção. Estou falando de um período de 28 anos.
Perdoem-me, todos que tiverem acesso a estas palavras, pela ousadia de escrever sobre um assunto dito de exclusivo domínio por parte dos profissionais da medicina. Não tenho a pretensão de usurpar a autoridade dos estudiosos da área. Quero apenas compartilhar minha experiência e tudo o que o Deus vivo tem feito em minha vida.
Há muitos anos, quando ainda tinha meu filho bem pequeno, eu me sentia profundamente envergonhada de sentir tristeza. Seria para mim a assunção da rejeição e isso era indigno demais. Então, quanto mais triste ficava, mais tristeza eu contratava, pois minha tristeza tinha como causa a própria tristeza.
Nesse tempo eu desenvolvi um mecanismo inteligente de defesa: a impassibilidade. É impressionante como você consegue não transparecer nada, absolutamente nada, quando se torna impassível. Congelava a dor e a decepção em meu coração e jamais qualquer pessoa tinha acesso aos meus pensamentos. Certamente meus familiares percebiam alguma forma de amargura em mim pelo fato de acompanharem todos os motivos que me levavam a ela. Contudo, poucas vezes, ou quase nunca percebiam a realidade terrível que se passava em meu coração. Eu tentava compartilhar com meu filho, pois era a minha jóia, meu tesouro. Mas, é claro, ele não podia compreender. Por isso, meus sentimentos eram deliberadamente disciplinados, programados para não se manifestarem, retraídos, até não ser mais possível senti-los.
O mais impressionante neste processo é que eu sempre me preocupei em não me tornar uma pessoa amarga. Eu pedia isso a Deus, da maneira como eu podia, pois o mundo ainda tinha muita importância para mim. Eu tinha expectativas enormes com relação às pessoas. Eu desejava, ou mais que isso, eu necessitava desesperadamente que as pessoas me aceitassem, que gostassem de mim. E a depressão me corroía sorrateiramente. Uma das conseqüências desse processo foi a perda de peso. O desânimo era administrado diariamente para eu poder trabalhar e administrar as tarefas de casa. A única coisa que me enchia o coração era a presença do meu filho. Deus sempre tem um lenitivo para nos suportar em tempos difíceis, mesmo quando estamos na desobediência por ignorância. Ele é misericordioso e justo, e conhece o nosso coração.
Minha situação agravou-se tanto que comecei um processo de autodestruição física. Eu percebia o que estava acontecendo e temia pelo pior. Tinha profundas e agudas dores nas costas. Para poder arrumar minha cama eu precisava ficar ajoelhada. Fazer um breve percurso de ônibus era uma tortura. Minha pressão era quase sempre tão baixa que eu andava preocupada em estar perto de algum lugar onde pudesse ser socorrida caso desmaiasse. Sempre acompanhada por um médico que era também amigo, tinha nele uma forma de desabafar alguns dos sentimentos que me angustiavam. Mas, reservava todos os pensamentos que me faziam sentir inferiorizada apenas para Deus e para mim mesma. Contudo, havia sentimentos que eu não admitia nem mesmo para nós dois. Apenas os congelava, ignorava, escondia.
Para fugir disso tudo, eu necessitava estar sempre no meio de gente barulhenta, de música, de falatório, festas, baladas, etc.. Eu gostava muito de conversar, horas a fio, fosse lá o que fosse o assunto. Eu precisava falar. Eu precisava rir. Eu precisava que as pessoas me vissem bem!
Então, o antagonismo que existia entre minha vida aparente e minha intimidade, acabou por me levar ao silêncio. Não consigo encontrar outra palavra para descrever o que aconteceu nesse período. Caiu sobre mim um silêncio tão grande que nada mais conseguia chamar minha atenção. Tudo o que eu gostava não tinha mais sabor. As pessoas, as atividades, os passeios e festas, nada! Era um silêncio interno muito mais do que externo. Era um silêncio de pensamentos e de sentimentos. Era o vazio total. Dentro de mim havia um abismo. Se antes eu tinha que lutar para que os sentimentos se mantivessem congelados, agora eu havia sido amortecida por eles. Minha vontade já não mais atuava e eu apenas era triste. Acho que a arrogância nunca foi um traço tão forte do meu caráter quanto nessa época. Era a única arma que me restava para defender minha dignidade, pois eu imaginava que me expor traria vergonha e dor.
Bem, quando eu cheguei realmente no fundo do poço, percebi que estava morrendo. Tenho certeza de que se as coisas não tivessem mudado, eu teria morrido de tristeza. Apenas teria definhado. Guardo uma foto dessa época como testemunho.
Foi então que comecei a ouvir, no profundo silencio que se estabelecera em minha alma, a doce voz do Senhor, embora eu não soubesse na época que era Ele. Então eu chorava. Certamente nos registros do meu médico isto deve estar gravado. Eu chorava de manhã e de noite. Às vezes ligava para ele e dizia que precisava parar de chorar para ir trabalhar, mas que eu não tinha controle sobre isso. Eu chorava de dor. A dor era profunda e parecia incurável. Eu acordava de manhã e desejava não ter acordado. Tenho certeza de que Deus havia permitido que meu filho viesse ao mundo, pois foi o único elo meu com a vida.
E Deus começou a falar. Às vezes me questionava sobre pecado. Eu ia à Bíblia, lia e pensava que era interpretação de homens e nada tinha a ver com Deus. Isto porque o que estava acontecendo comigo eu ainda não identificara como sendo o mover do Espírito. Eu não sabia, até então, que Deus nos tocava assim. Apenas estava passando por este constrangimento absolutamente incontrolável, lutando como desesperada para voltar a dominar meus sentimentos, pois agora eu precisava estar sempre recolhida para chorar.
Então, um dia, minha irmã me convidou para ir com ela a um culto em uma congregação evangélica. Eu já tinha ido a outra igreja evangélica, formal e tradicional onde me senti numa vitrine quando me pediram para levantar como visitante. Odiei a sensação. Achei tudo uma tremenda falsidade. Como podiam aquelas pessoas, que mal me conheciam, dizer que estavam felizes com a minha presença ali? Era um completo absurdo.
Eu fora católica até então. Freqüentava a igreja aos domingos e clamava a Deus por favores que eu julgava necessitar. Mas nunca era atendida, no meu ver. E, de uma coisa eu me lembro bem: a cada término de missa, o padre abençoava o povo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Eu me ajoelhava e tomava posse daquilo como de uma tábua no meio do oceano. Era quase tangível aquela bênção como se fosse uma migalha do amor de Deus que eu podia alcançar. As pessoas não tinham o costume de se ajoelhar nessa hora. Eu era a única que fazia isso e não me importava se achavam estranho. Era um prazer único. É impressionante como me lembro disso.
Mas, nesse mesmo tempo, pouco antes de visitar igrejas evangélicas, eu comecei a perceber que os ensinos da igreja Católica nada tinham a ver com os ensinos de Jesus! A dúvida começou a crescer e eu comecei a não sentir mais alegria nas missas. Aliás, eu não sentia alegria nas missas. O que eu sentia era um prazer mórbido de extravasar minha alma em pranto, justificada pelas músicas e pelas palavras do padre.
Passando a compreender que a verdade não estava entre os padres, abandonei o catolicismo. Embora achasse que todos os crentes eram pegajosos e chatos, atendi ao convite da minha irmã. Ela estava em gravidez adiantada e o local do culto era muito apertado para o número de pessoas. O calor logo fez com que minha irmã se sentisse mal, ao ponto de desmaiar. Vendo isso, acudiram-na várias pessoas, inclusive a esposa do pastor. Eles começaram a orar e eu disse que era apenas o calor que a tinha deixado assim e que era preciso tirá-la dali para respirar ar fresco. Então a esposa do pastor, com ar solene me olhou e disse: – Você já tem Jesus como seu salvador? – Não foi uma idéia inspirada que ela teve, porque a única resposta que eu tive para ela foi: – Porque, vocês acham que Jesus é propriedade exclusiva dessa igreja? – E me levantei com minha irmã que já se recuperava um pouco e fui embora, indignada.
É claro que ela percebeu o que havia comigo e me disse, sabiamente: – Porque você não pára de ficar procurando Deus em tudo que é igreja e não vai pro teu quarto e ora, pedindo a Deus que te mostre onde Ele te quer? Esta sim foi uma palavra inspirada, pois para ela eu não tive resposta.
Bem, eu fiz o que ela me sugeriu, contra a minha vontade é claro. O Senhor se manifestou maravilhosamente em poucos dias e eu encontrei o meu lugar junto ao povo de Deus. Os detalhes não cabem aqui, mas quero dizer que isto aconteceu para que eu pudesse encontrar a alegria verdadeira. Contudo, a alegria só pode aparecer em meu coração depois de eu ter chorado todas as lágrimas por todos aqueles sentimentos de frustração, rejeição, indignidade, culpa, medo e sei lá mais o quê. Então eu sorri! Percebi que era importante pra Deus e então eu era importante pra todas as pessoas que conheciam a Deus, mesmo as que eu nunca tinha visto antes. Elas eram pessoas que tinham os mesmos sentimentos que eu e isso é maravilhoso.
E assim, em 1991, teve início um tremendo processo de cura da minha depressão e, vitória após vitória, jamais tomei um medicamento antidepressivo. O médico com quem me tratava é homeopata e a medicação aliviava em muito, mas, obviamente não eliminava a causa: falta de alegria! É, isso mesmo! Assim como as trevas são ausência de luz, o frio é ausência de calor, o medo é ausência de segurança, A DEPRESSÃO É AUSÊNCIA DE ALEGRIA!
Ao contrário do que se afirma, não entendo a depressão como uma doença. Ela é, para mim, o sintoma da doença. E ela é sintoma de diversas doenças que podem ser físicas, emocionais ou morais.
Não quero dizer, com isso, que a depressão seja um sintoma psicológico. Creio, e isso somente os médicos especialistas podem explicar, que diversas causas desencadeiam um processo físico que afeta a alma, tornando o humor depressivo.
Mas além disso, quando temos um problema físico, um trauma, um pós-cirúrgico, uma deficiência de vitamina, ferro, hormônio ou qualquer outra substância importante ao bom desempenho do nosso organismo, logo sentimos os sinais que são comumente: fraqueza, tonturas, enjôos, dores de cabeça, desânimo, irritação, inapetência ou apetite insaciável, nas mulheres o aumento das regras e das cólicas menstruais, nos homens a diminuição da atividade sexual e tantos outros sintomas que conhecemos. Estes problemas, se permanecerem por longo tempo, levam embora a alegria de viver, não só pelo desconforto, mas pelas conseqüências que geram na nossa vida, nos nossos compromissos e, principalmente, nos nossos relacionamentos. Então essa ausência de alegria transforma-se em depressão. Mas é comum as pessoas não fazerem essa ponte e acharem que a depressão é um fato isolado.
Outra causa da depressão é a culpa. Quando cometemos um erro e temos consciência dele, sem, no entanto, nos retratarmos, a culpa assume um status em nosso coração que subjuga a alegria e rouba a paz. Este estado de ânimo nos leva a uma profunda tristeza da qual não temos forças para sair sozinhos. Somente pela ministração do Espírito Santo é que chegamos ao arrependimento e à reparação do erro, o que nos traz novamente a alegria.
Finalmente, a alegria é também sobrepujada pela mágoa. Este sentimento nos faz sentir vítimas, injustiçadas e cheias de razão. Ainda que seja verdadeira a razão da mágoa, a alegria não vai permanecer em nosso coração juntamente com ela, pois a alegria é dom de Deus e guardar mágoa é pecado. Somente pela liberação do perdão é que somos livres da mágoa. Não há outra forma de ser curado desse mal terrível que é o pior de todos os males do coração humano, pois ele é alimentado pelo orgulho e pela justiça própria. Não tenho dúvidas de que a mágoa seja a maior responsável pelos desvios dos cristãos, pelos descaminhos dos ímpios e até mesmo pelos suicídios. Não foi por menos que Jesus chegou à cruz. Sua maior lição e preocupação é que aprendamos a perdoar, muito mais do que a buscar perdão, haja vista a culpa ser uma coisa da qual nós sempre queremos nos livrar e a mágoa, um tesouro que guardamos, pois nos faz sentir que somos melhores do que aquele que nos magoou. Então, que grande pecado é!
“Perdoai os nossos pecados assim como perdoamos …” Perdoar vem primeiro pois não posso ser perdoado se retiver perdão. Isto porque, liberar perdão faz parte da postura daquele que verdadeiramente se arrependeu do pecado do rancor que é raiz de amargura.
Por tudo isso, cheguei à conclusão de que a depressão não é o nosso maior inimigo, mas simplesmente um aviso de que há algo errado em alguma área da nossa vida. Assim como a febre nos avisa de problemas internos, a depressão nos avisa de que precisamos parar e fazer uma sondagem física, emocional e moral em nossa pessoa, para que, revelada a causa, possamos ter restabelecida a desejável alegria que é o toque do Senhor em nossos corações.
Particularmente, há muitos anos, toda vez que me sinto infeliz, faço uma consulta particular com Deus buscando a sondagem do Espírito Santo em meu coração. Caso a falta de paz permaneça, mesmo não havendo culpa ou mágoa, busco auxílio dos médicos para averiguar a causa física. Nesse tempo já descobri um hipotireoidismo que é campeão em causar depressão, anemia, que é uma forte concorrente, e vida sedentária, que diminui consideravelmente a disposição e a agilidade física e mental, comprometendo a alegria de viver. Mas, não seria honesta se não declarasse que a maior parte das vezes a depressão que me afligiu foi causada por culpa ou mágoa.
Alegria Por tudo isso, posso testemunhar, com grande alegria, que a Palavra do Senhor é vida e poder. Seu perdão traz renovo para nossas forças e liberar perdão a outrem, é saúde para os nossos ossos.
O meu desejo é que você possa se lembrar dessas coisas, caso seja surpreendido pela falta de alegria, e encontre no Senhor o caminho de volta para o centro da Sua vontade, que é perfeita eternamente. Amém. Mas também, que você procure, a cada dia, fazer a manutenção dessa alegria, através do convívio íntimo com o Senhor, porque “a alegria do Senhor é a nossa força” (Ne 8:17), “Puseste alegria no meu coração, mais do que no tempo em que se lhes multiplicaram o trigo e o vinho.” (Sl 4:7), “Far-me-ás ver a vereda da vida; na tua presença há fartura de alegrias; à tua mão direita há delícias perpetuamente.” (Sl 16:11),
“Porque a sua ira dura só um momento; no seu favor está a vida. O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã.” (Sl30:5),
”Tornaste o meu pranto em folguedo; desataste o meu pano de saco, e me cingiste de alegria,” (Sl30:11),
“Formoso de sítio, e alegria de toda a terra é o monte Sião sobre os lados do norte, a cidade do grande Rei.” (Sl 48:2).
E não é só isso! Há muito mais na Palavra do Senhor! A Ele toda a honra e toda a glória! Amém!

Florianópolis, 18 de outubro de 2005.

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